O dia 08 de março não é uma data nada rasa. Ela surge no início do século XX, em 1917, sendo mais exato, quando a marcha “Pão e Paz” (Moscou) realizada por trabalhadoras russas que reivindicavam não apenas salários iguais, mas também melhores condições de trabalho e contra a conjuntura política da época, que envolvia temas delicados, como czarismo, fome, e o papel da Rússia durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Este evento, aliás, é essencial para entender aquele momento histórico e como as mulheres estavam se posicionando face a sua própria realidade. O movimento feminista, que atualmente tem sido acusado de estar esvaziado e ter-se perdido na sua missão, era, àquela época, atuante e começava a influenciar todo o Ocidente.

Corta para outro momento anterior à Pão e Paz. Nova Iorque, fábrica Triangle Shirtwaist, fábrica têxtil e de confecções que, em 25 de março de 1911 foi atingida por um grave incêndio, no qual morreram 145 pessoas como resultado de um misto entre ausência de conhecimento, negligência e crimes contra os seus ocupantes, dentre eles a maioria mulher. Esta data, por ter sido um marco na luta por direitos trabalhistas relacionados à igualdade e à segurança no ambiente de trabalho, em especial o trabalho feminino, contribuiu para que, em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) decidisse que a data de 08 de março fosse reconhecida como um marco essencial na história da luta feminina contra as desigualdades, violência e pelo reconhecimento da importância da posição da mulher no mundo. 1975, aliás, foi considerado o Ano Internacional das Mulheres.

Desafios atuais.

Associado a outros movimentos sociais, especialmente os movimentos relacionados aos direitos de gays, lésbicas e bissexuais e transexuais, hoje conhecido como LGBTQIA+, o feminismo parece ter se perdido em sua essência. De uma manifestação legitimada pelas necessidades sociais encontradas por mulheres em todo o mundo, ao que parece, a complexidade de pautas, a grandiosidade dos agentes, a capilaridade política e a ausência de filosofia estruturada em bases mais consolidadas, para além do cientificismo de bases frágeis, associada à vastidão de alcance que a internet ofereceu, o feminismo se filiou a movimentos aparentemente contrários ou negacionistas dos ideais femininos, dividindo a própria classe feminina em “mulher cis” e demais tipos de mulheres (sendo o mais interessante fenômeno, a associação entre transsexuais e travestis e mulheres). Estes movimentos têm enfraquecido o movimento feminista, alegadamente porque desviam parte da atenção e dos recursos para pautas que não contribuem e, em alguns casos, causam invisibilidade de mulheres no país.

Alguns exemplos de tais pautas: a complexa inclusão de mulheres trans em espaços femininos, como abrigos de violência doméstica, no esporte e em banheiros públicos, o que tem causado graves atritos principalmente entre as linhas de feminismo consideradas mais “radicais”, que defendem que a categoria “mulher” tenha como base o sexo biológico; o uso do gênero neutro, que tem causado atrito até mesmo entre os educadores, mas no que tange à luta feminina, a substituição do termo “mulher” por “pessoas com útero” ou “pessoas que menstruam” tem causado graves atritos entre pessoas que afirmam que isto é o processo ativo de apagamento do papel político da mulher; menção importante também a questão da definição de políticas públicas para mulheres, que, por alguns grupos, deverá ser diferente e separada de politicas que atendem como público-alvo pessoas trans ou pessoas LGBTQIAPN+ apenas identificadas como “mulher”.

Reafirmando, no Brasil, país altamente conservador em sua essência e origem algumas pautas feministas têm sido objeto de conflito entre mulheres e outros grupos. Há mulheres que acusam o feminismo de ser esvaziado por outros agentes do Terceiro Setor, e dos grupos militantes gays que menosprezam ou simplesmente ignoram mulheres quando não é conveniente ou interessante.

Associado a este quadro, a penúria intelectual e educacional que o país atravessa, atestada na baixa incidência de leitores, pessoas alfabetizadas, e completamente ausentes de acesso a filósofos e autores clássicos, alfabetizados e orientados filosoficamente pelas redes sociais, entre elas o raso e superficial Instagram, temos uma visão de feminismo (e até mesmo do feminino) fragmentada e fragilizada. Neste momento que atravessamos em 2026, mais que nunca há a necessidade premente de leituras. No caso das mulheres, pessoas que são celebradas neste dia, a leitura tem a função de apresentar direcionamento e orientação filosófica e prática para aumentar a autoestima e revigorar o ânimo para a conquista das metas comuns à atividade feminina pós-século XX.

10 Livros essenciais na formação da mulher (feminista ou não)

O objetivo com a lista abaixo é promover leitura de qualidade para todas as mulheres, contribuir para o seu crescimento e melhoramento pessoal e, claro, aumentar o repertorio cultural das nossas leituras por meio da promoção de cultura literária da maior qualidade.

Todos os livros listados se encontram no BLG. Esperamos que eles sejam de muita serventia para todos e todas, e, sobretudo, que alguma das obras listadas possa conquistar o coração e gestar o gosto pela leitura como hábito de vida, contexto no qual a libertação do Brasil das garras da ignorância será apenas uma questão de tempo. Às obras:

  • Mulheres que Correm Com Lobos (Clarissa Pínkola Estés) – O livro é essencial porque explra contos e histórias de diversas tradições para explorar o que a autora define como o arquétipo da “mulher selvagem”. Este arquétipo é associado à intuição, criatividade e força instintiva advinda das mulheres. A obra é essencial porque parte da premissa que as mulheres perderam o contato com estas forças ancestrais e precisam estar conectadas para se salvar das armadilhas do mundo contemporâneo. 
  • O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir) – Este é provavelmente o texto mais conhecido de Simone de Beauvoir, e há quem o ame e quem o odeie. Nele a autora explora a sociedade e a construção histórica do que ela chama de “a ideia de ser mulher”. A autora busca emplacar a ideia de que a feminilidade é uma criação social, e portanto, superável como algo anormal. A frase mais famosa saída deste livro é: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. E com o passar do tempo, tanto o livro, quanto a autora e a frase passaram a ser alvo de críticas e de questionamentos, em sua maioria, válidos.
  • Querida Yeawele, ou Um Manifesto Ferminista em 15 Questões (Chimamanda Ngozi Adichie) – Escrito como um pequeno ensaio, o livro tem um estilo simples e direto. Nele, a autora responde a uma amiga, apresentando 15 orientações práticas para que sua filha seja criada com consciência de gênero. A obra é importante porque toca em questões que giram no entorno de autoestima, independência, senso crítico perante a sociedade e liberdade. Estes temas são mais realistas e têm causado uma excelente impressão nas leitoras e nos participantes mais conscientes do movimento feminista.
  • Eu Sou Malala (Malala Yousafzai) – A autobiografia de uma jovem paquistanesa que luta por acesso à educação em meio ao extremismo do grupo Talibã. Malala sofreu um atentado nesta luta, por isso se tornou um nome referência para o seu país (Paquistão) e um símbolo na luta pelo direito à resistência feminina e o acesso à educação.
  • O Conto da Aia (Margaret Atwood) – Uma criativa distopia ambientada em uma sociedade totalitária que obriga as mulheres férteis a serem reprodutoras dos filhos da elite governante. A protagonista, Offred é um símbolo, uma crítica à forma com que os sistemas buscam controlar a autonomia e o corpo das mulheres das mais diversas e criativas formas.
  • Mulheres, Raça e Classe (Ângela Davis) – Ângela Davis expõe magistralmente neste texto como raça, classe e gênero se interligam sob o panorama das opressões de gênero. O recorte oferecido pela autora é norte americano, mas a sua experiencia revela a necessidade de encarar as demandas feministas coletivamente, uma vez que os sentimentos e as violências são praticamente as mesmas independentemente do continente onde ocorrem!
  • Pequeno Manual Antirracista (Djamila Ribeiro) – De linguagem simples, com estilo dinâmico e direto, Djamila Ribeiro, que é filósofa, apresenta reflexões e orientações que têm por objetivo permitir à leitora reconhecer e combater o racismo estrutural na vida cotidiana. Além deste ponto, a obra destaca o protagonismo ao longo da história das mulheres negras, demonstrando assim o seu papel na construção da sociedade mais justas e com menor desigualdade social.
  • O Poder (Naomi Alderman) – Uma obra ficcional de teor especulativo. Nele as mulheres desenvolvem a habilidade de produzir descargas elétricas, o que as tornam dominantes. O ponto central da narrativa está na análise do poder e de como as estruturas se invertem a partir da desigualdade de poder, transformando e criando protagonistas mesmo em situações pouco prováveis.
  • As Cientistas – 50 Mulheres que Mudaram o Mundo (Rachel Ignotofsky) – O livro é um resumo inspiracional da história de mulheres que contribuíram de maneira excepcional para o desenvolvimento de coisas e a descoberta de processos que transformaram o mundo em diversas áreas. Ilustrado, é um verdadeiro conjunto de bons exemplos e de mulheres capazes de mudar o jogo.
  • A Cor Púrpura (Alice Walker) – A Cor Púrpura já virou filme. De enorme relevância, a obra apresenta Celie, mulher e negra que vive no sul dos EUA no início do século XX. Seu cotidiano é marcado por abuso, racismo e desigualdades em todos os níveis, o que não a impede de resistir à sua maneira, encontrando sua autonomia e voz, servindo como uma historia de resistência e emancipação face forças que buscam oprimir a mulher.

A leitura é o antítodo capaz de transformar a vida e de impedir que qualquer desigualdade se torne sufocante e indestrutível. Este editorial, de livros feitos por mulheres para mulheres é também uma forma de assegurar que a transformação seja uma realidade possível.

O editor.


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